Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007

Terceira Semana - Reportagem

Olá a todos!

 

Chega a vez de dar resposta ao terceiro desafio! E se na tarefa da segunda semana apostámos num carácter cómico-satírico, agora abordamos a questão de uma forma "mais séria".

Pois bem, está na altura de apresentarmos a nossa reportagem, subordinada ao tema "Ridendo Castigat Mores" e o Auto da Barca do Inferno.

Optamos por realizar esta tarefa sob a forma de vídeo. Porquê? Porque consideramos ser o recurso mais apelativo, uma vez que inclui simultaneamente imagem e som, mas também porque, de uma forma geral, é o meio mais eficiente para transmitirmos informação, não fossem a televisão e a Internet os media mais utilizados no que diz respeito à obtenção de informação na sociedade dos nossos dias.

Assim, é importante referir que o vídeo foi desenvolvido com o objectivo de ser utilizado, por exemplo, num jornal televisivo.

Na reportagem, abordamos de uma forma simples, mas completa, a obra por nós seleccionada e justificamos a razão pela qual o provérbio latino "Ridendo Castigat Mores" se ajusta perfeitamente a este feito literário. Quisemos ainda compreender o porquê de os alunos serem tão receptivos ao estudo da mesma. Para tal, baseámo-nos no testemunho directo da comunidade estudantil.

Deixemo-nos de palavras e passemos à acção!

 

 

 

Disponiblizamos a reportagem em formato de texto, como mero anexo ao vídeo anterior.

 

"Ridendo Castigar Mores" e o Auto da Barca do Inferno

 

Ridendo castigat mores”, expressão latina que significa “a rir criticam-se os costumes”, é a frase que melhor resume a intenção e o estilo próprio de Gil Vicente, poeta e dramaturgo português do séc. XV, conhecido por todos nós.

Esta expressão é a forma mais adequada de iniciar a abordagem do “Auto da Barca do Inferno” ou “Auto da Moralidade”, pelo facto de nesta obra ser bastante evidente a sátira social que, através do seu cómico, critica a sociedade, tentando assim denunciar tudo aquilo que na opinião do autor era merecedor de atenção e mudança.

É certo que Gil Vicente não foi o criador do teatro português, mas foi com ele que este transcendeu o estado embrionário em que se encontrava, desde o século XIII, e passou para um nível mais elevado, mais moderno, tal como diz Luís Francisco Rebello em “A História do Teatro Português”, “Gil Vicente é ao mesmo tempo, o derradeiro medieval e o primeiro dramaturgo moderno. E essa é talvez a faceta mais importante daquela unidade que, acima de tudo, caracteriza a sua obra”.

O autor criou um teatro à parte da pré-história e fê-lo enquadrar-se na sua própria contemporaneidade.

Assim, além de ser um espantoso feito literário, a obra vicentina possui algo enérgico que sobressai espontaneamente em cada parágrafo, em cada linha, em cada palavra que a constitui, ou seja, a obra retrata a sociedade portuguesa do seu tempo. O escritor vê nela todos os pormenores que a caracteriza tais como as suas classes sociais, os seus vícios, e os seus impulsos intelectuais e religiosos.

Já Deniz-Jacinto nos dizia em “O Tempo Encontrado”, “...foi ainda um corajoso denunciante da venalidade dos grandes, não poupando até a mais alta hierarquia eclesiástica.”

Devido a isto, e para conseguir abranger o máximo de características possível, Mestre Gil usou personagens tipo, que iam desde personagens divinas e diabólicas, passando por todas as classes.

Este facto é bem evidente no “Auto da Barca do Inferno”, obra escrita em 1517, pois nela interagem personagens tão diferentes e únicas como o Anjo, o Diabo, o Fidalgo, o Onzeneiro, o Parvo, o Sapateiro, o Frade, a Alcoviteira, o Judeu, o Corregedor, o Procurador, o Enforcado e os Quatro Cavaleiros.

Mas por que razão pretendeu Gil Vicente juntar personagens tão distintas numa só obra? Por uma simples razão: pelo facto de ansiar atingir o fundo da questão, chegar ao íntimo do que o rodeava e do que observava quotidianamente.

Então, decidiu usar, na sua obra tão singular, personagens que, por serem tão diferentes, conseguem caracterizar grupos inteiros, pois identificam a maioria das características que definem um determinado estereótipo. Por exemplo, o Fidalgo, com o auxílio de símbolos como o pajem, o manto e a cadeira, caracteriza a nobreza, pelo seu modo tirano, vaidoso e poderoso. O Frade simboliza o Clero, pela presença de símbolos como a moça, o casco, o broquel, a espada e o capelo (característico da vida religiosa). O mesmo se vai passando com todas as outras personagens.

As personagens do Auto da Barca do Inferno podem ser encontradas, ainda hoje, no nosso dia-a-dia, se não vejamos: o Onzeneiro, que emprestava dinheiro e que pedia o dobro ou o triplo de volta, pode ser comparado com o actual monopólio da Banca, os seus sistemas de créditos e os juros aplicados; a Alcoviteira, com as suas meninas e o seu jeito depravado, pode ser hoje comparada com as donas de bordeis, que ganham a vida com a exploração e gestão da prostituição; o Procurador e o Corregedor, que actuam não sobre uma justiça com regras definidas e claras, mas segundo os seus princípios e interesses particulares, podem ser comparados com o sistema judicial actual, onde a justiça é muitas vezes difícil de se conseguir e sobretudo muito lenta.

Existem no total 13 personagens que, uma a uma, vão entrando em cena.

O Fidalgo é a primeira, e vem acompanhado pelo seu pajem, que lhe carrega a cadeira. Este é escolhido como primeira personagem deste Auto, uma vez que era objectivo do autor cativar os espectadores, neste caso a Nobreza, devido ao facto das suas peças serem representadas na corte. Ele procura a salvação argumentando que partiu muito repentinamente e que, além disso, merecia alguma consideração, pois era “fidalgo de solar”. Porém, estes argumentos de nada lhe valem pois, para o Anjo, nenhuma destas justificações é realmente pertinente e digna de ponderação.

Assim, de modo a justificar a sua atitude de negação, o Anjo acusa-o de, ainda em vida, ter oprimido, explorado e desprezado o povo e de sempre ter tido uma atitude vaidosa e presunçosa.

Por fim, quando se apercebe de que já não tem como argumentar a sua tão desejada entrada na Barca da Glória, resigna-se à evidência de que o seu novo destino está já marcado: terá de entrar na barca ardente. É neste momento que usa expressões como “Ó barca como és ardente!”, ou “Maldito quem em ti vai!”.

Além desta personagem, como já dissemos, Quase todas as outras vão também para a Barca do Inferno. São excepção a personagem do Parvo e dos 4 Cavaleiros. O primeiro, graças à sua ingenuidade e inconsciência dos seus actos e, estes últimos, pela virtude das suas acções, não chegam sequer a aproximar-se da Barca do Inferno, indo directamente para a Barca da Glória.

Com isto, ambas as barcas seguem o seu próprio caminho, uma em direcção ao Inferno, e outra em direcção ao Paraíso, terminando assim a obra.

É de realçar que a personagem do Judeu vai a reboque na barca do Inferno. Isto é importante uma vez que vincula o carácter católico de Gil Vicente, não aceitando o Judeu nem dentro da barca do Inferno.

Gil Vicente utilizou ao longo da obra três tipos de cómico: o de situação, o de linguagem e o de carácter.

Este auto é assim uma obra que sobressai na literatura portuguesa quer pela sua intemporalidade, quer pelo seu estilo cómico-satírico único.

Os objectos da crítica Vicentina – a corrupção na justiça, a prostituição, a ganância, a usura, a vaidade, a presunção do estatuto social, entre outros – ainda fazem parte da sociedade portuguesa contemporânea porque o cómico que criticava implicitamente a sociedade quinhentista consegue, ainda hoje, criticar-nos provocando-nos o riso.

Foi este o objectivo principal de Vicente: criticar de uma forma cómica mas nem por isso explícita e, assim, alterar os costumes de uma época marcada pela falta de valores que se estendeu até aos nossos dias, ou talvez corrigir os costumes, respeitando assim o ideal “ridendo castigat mores”.

 


FONTES:

 

- DENIZ-JACINTO, TeatroII – “O Tempo Encontrado”, Porto, Lello & Irmão Editores, 1992

 

- REBELLO, Luís Francisco, História do Teatro Português, 4ª ed. Revista e ampliada, Colecção Saber, Lisboa, Publicações Europa-América, 1989

 

- VILELA, Ana; GUERRA, Dalila, Uma leitura de Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente - 9.º Ano, Porto, Porto Editora, 2000

 

- Auto da Barca do Inferno. Acedido em: 27, Fevereiro, 2007. WIKIPEDIA, http://pt.wikipedia.org/wiki/Auto_da_barca_do_inferno

 

- Gil Vicente. Acedido em: 26, Fevereiro, 2007. WIKIPEDIA, http://pt.wikipedia.org/wiki/Gil_Vicente

 

- História da Literatura Portuguesa. Acedido em: 26, Março, 2007. Enciclopédia Universal Multimédia On-Line, http://www.universal.pt/scripts/hlp/hlp.exe/multimedia?tipo=1&p=1&texto=

 

- Idade Média. Acedido em: 27, Fevereiro, 2007. WIKIPEDIA, http://pt.wikipedia.org/wiki/Idade_M%C3%A9dia

 

 

sentimo-nos: autênticos jornalistas!
publicado por Vanessa às 23:28
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3 comentários:
De demos a 9 de Março de 2007 às 19:35
parabéns, adorei a reportagem =)


De Diogo Costa a 9 de Março de 2007 às 21:14
Obrigado pelo apoio "Demos"!

Abraço da equipa,
DizQueSim


De marta14 a 18 de Novembro de 2007 às 13:27
toda esta reportagem e o seu comentário sobre "o auto da Barca do inferno" é muito informativo e ajuda-nos de algum modo a saber um pouco mais sobre a obra em si.
Esta informação foi muito útil para mim, e tenho acerteza que para muito mais pessoas!
Muitos parabéns


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